domingo, abril 10, 2005

"Melhor morrer de raiva que de remorso"

Poucas práticas coletivas são tão universais quanto o exercício sistemático e perseverante da maledicência. Aos desavisados: a ida de duas ou três mulheres a um banheiro; a pausa de alguns amigos de faculdade, entre um ou outro instante em que, compenetrados, usufruem dos milagres do ctrl + c, ctrl + v na elaboração dos seus trabalhos acadêmicos; ou ainda a clausura de colegas de trabalho na copa, nos minutos finais de suas horas de almoço - em todas as circunstâncias, abundam os estragos da língua ferina.
Falar mal dos outros é um esporte tão, mas tão democrático que você nem precisa de vida social ativa, de fato, para praticá-lo: um único ser humano conectado à internet é capaz de disseminar mensagens as mais bombásticas - vide as facilidades proporcionadas pelo orkut, e-mail e msn, entre outros, para falar da vida alheia em grande escala, veiculando infâmias via comunicação de massa e com largo alcance. Imaginem então o perigo que não representa, sob este aspecto, um infeliz em casa no sábado à noite, cuja maior alegria é assistir ao Zorra Total na Rede Globo (creio que possivelmente foi em situação semelhante de desespero e caos psicológico que algumas das maiores tragédias humanas aconteceram). E digo mais: se o tal sujeito tiver uma câmera digital em casa, dessas que sempre propiciam o registro das maiores presepadas etílicas dos bebuns socialmente atuantes - e felizes sim, e daí? - têm-se então um material de alta periculosidade em mãos, pronto para virar boato correndo a boca miúda.
Outros maldizentes são mais ardilosos e aderem à segmentação do seu marketing: a conversa, nesse caso, é ao pé do ouvido, geralmente com os detalhes mais escabrosos sendo reservados apenas aos amigos íntimos. Quer identificar um destes em ação? Palavras e fragmentos de frases como "nem te conto", "tu não sabe!" e "minha gente, vê só...", seguidos da habitual pausa dramática pra gerar o clima de expectativa e curiosidade, são uma boa evidência de que alguém está prestes a ter sua vida, seus atos e, acima de tudo, sua vida amorosa dissecados. Essa segmentação, na verdade, é triplamente eficaz: com precisão quase cirúrgica mantém todas as pessoas próximas informadas, valoriza a informação ao manter o clima de segredo e ainda permite que se fale por mais tempo: o coitado que teve sua vida devassada demora mais a descobrir que virou assunto de interesse público e que, da mesa do bar às festinhas particulares, só se fala nele.
Mas não se pode pensar, no entanto, que apenas os disseminadores de comentários é que se especializam e aperfeiçoam esta atividade que é quase uma ciência. Há também aqueles que todo mundo jura que nasceram pra estar na boca do povo, tamanha é sua vocação - praticamente um dom, diriam - para alvoroçar os ânimos e estimular a falação geral. Todo círculo de amigos tem um ou dois assim, e estes são capazes de tirar do sério até o mais reservado ou paciente dos seres humanos. Duvida? Mencione seu nome por aí e veja se não brota gente da terra pra maldizer, reclamar ou o que no fim das contas é o melhor de tudo: contar casos hilários, constrangedores, revoltantes. Depois da catarse coletiva, não são poucos os que são acometidos de uma temporária crise de consciência - "como já se viu falar assim de alguém?!", "até que não é má pessoa, só um pouco inconveniente" ou o clássico "nunca mais falarei coisas deste tipo de novo", uma promessa que, claro, nunca se cumpre, pelo simples fato de que a pessoa tem o dom de tirar qualquer um do sério. Para sorte destes indignados arrependidos e sempre reincidentes, a ameaça de que seja desmentido por algum surto de sobriedade emocional e adequação social por parte daquele que é o alvo dos comentários nunca se cumpre: ele sempre está lá, fazendo tudo como dissemos que faria e continuando com seu habitual comportamento, deixando qualquer um prestes a soltar os cachorros - e a língua.
Menos mal: antes morrer de raiva que de remorso.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Aí Balaozinho....
Com conhecimento de causa... hahaha: é melhor morrer de raiva do que de remorso!
Logo logo vou postar sobre o mote.
Aguarde, viu!
NATHA

5:46 PM  

Postar um comentário

<< Home